No interior das grandes minas gerais, estado famoso por seus queijos e doces, nasceu José Carlos de oliveira Ferraz, ou apenas, Zé Carlos. Este mineiro de 32 anos havia passado por uma difícil fase em sua vida e agora se encontrava prostrado ali, bem ali no enorme celeiro de seu pai, seu falecido e amado pai, que anos atrás o avisara sobre os perigos da vida.
Em 1997, Seu Agostinho Ferraz, proprietário de terras ricas e rebanhos fartos do interior de Minas, havia conquistado o auge de sua produção e agora gozava de uma conta bancaria extremamente farta e sólida. Agostinho era um homem sábio, vindo de uma família batista, do qual se orgulhava muito por ter sido esta a responsável por lhe apresentar a felicidade de viver uma nova vida em Deus. O prospero fazendeiro também era um grande pregador do cristianismo em sua região e era conhecido também por sua enorme generosidade para com os pobres. Todos admiravam aquele homem e muitos procuravam seguir seus passos.
Seu Agostinho possuía dois filhos, Pedro Ulisses, o mais velho e Zé Carlos o mais novo. Eram dois filhos de Agostinho com personalidades totalmente distintas. Pedro Ulisses era responsável, dedicado para com o pai, estudioso e sempre obediente para com sua família. Já Zé Carlos era preguiçoso, muitas vezes rebelde e fortemente voltado para as terríveis paixões da mocidade. Os dois não conseguiam se dar bem, pois sempre que Zé Carlos aprontava algo, lá estava Pedro Ulisses para confrontá-lo e isto era algo que irritava muito ao mais novo. As companhias de Zé Carlos eram as piores possíveis e tais amizades eram um aborrecimento para sua mãe Tânia.
Zé Carlos estava sempre envolvido em algo escandaloso em sua cidade. Varias vezes foi visto fumando cigarros e ervas alucinógenas. Outras tantas fora encontrado bêbado pelos bares e boates da cidade e era famoso no pequeno bordel daquela região. Para Zé o único sentido que a vida lhe apresentava, era de poder gozar todos os prazeres possíveis e saciar todos os desejos que seu corpo necessitava.
Logo que soube que seu pai havia faturado naquele ano de 1997, Zé Carlos pediu que seu pai financiasse uma cara faculdade de direito em São Paulo e seus custos na capital paulista. Para Tânia sua mãe aquilo era uma grande loucura. Sabia que o filho queria ir embora, para poder esbanjar dinheiro com as delicias perigosas da vida e tentou persuadir seu marido para que impedisse a saída tão precoce de seu filho. Para Seu Agostinho era um aperto ver seu filho se entregar as paixões carnais, mas sabia que nada poderia impedir o ímpeto de seu mais novo prodigo.
Saiu, pois o filho mais novo de Agostinho para a capital paulista. Matriculou-se na faculdade e logo procurou a republica mais agitada da cidade para ter como moradia. Lá Zé Carlos ganhou o apelido que mais detestou em toda sua vida, era mais conhecido como “Zé Doidão”. Para Zé tudo era novidade na capital Paulista, eram tantas pessoas, tantos prazeres e varias coisas novas que ele nunca havia sonhado em vivenciar. Zé viveu por lá gastando tudo que podia e tudo o que não devia. Estava tão distraído na vida que semestre após semestre foi fracassando em sua faculdade, sem dar nenhuma satisfação aos seus distantes pais que não lhe poupavam ajuda.
No inicio de 1999, Zé recebeu sua primeira péssima noticia vinda de sua casa. Sua mãe falecera, pois há muito tempo já vinha sofrendo de uma doença e não conseguiu resistir mais. Zé ficou tão abalado com a noticia, que decidiu esbaldar cada vez mais em suas tentações. Neste mesmo ano, seu irmão Pedro, agora casado e com seu próprio sustento, partiu para os Estados Unidos em busca de novos negócios para sua empresa. Zé nunca mais recebeu uma noticia sequer de Pedro.
Os anos foram passando e nada de Zé arrepender-se de suas atitudes. Estava sempre drogado ou bêbado, todas as noites dormia com distintas mulheres e nunca mais deu as caras na faculdade. Zé estava completamente perdido, para ele o tempo e espaço era algo que não podia ser mais percebido e começara a sentir sensações horripilantes em sua volta. Sentia a morte a cada momento em sua vida, era como se algo ou alguém feito de trevas o perseguisse todos os dias e noites. Zé passou a viver em um caos mental, passou a viver envolvido pelo o medo e um vazio enorme começou a tomar conta de sua alma.
Meses antes da comemoração da virada do milênio, Zé recebeu a segunda noticia mais terrível de sua vida. Seu pai estava indo muito mal nos negócios. Seu Agostinho estava em idade avançada e não conseguia mais gerenciar sua fazenda. A partida de seu filho mais velho para o exterior foi desastrosa para a fazenda, pois tudo era coordenado por ele e após sua saída, Seu Agostinho não resistiu à pressão do mercado. Agora Zé não possuía mais a grana farta de seu pai para esbanjar em seus prazeres e com isto Zé Carlos acabou perdendo tudo aquilo que pensara ter em São Paulo.
Em fevereiro de 2001, “Zé Doidão” perdeu-se de vez, com as ultimas informações vinda da fazenda. Um empregado de seu pai fora enviado para encontrar-lo e trazê-lo de volta para fazenda antes da morte de Seu Agostinho. Zé foi encontrado depois de alguns dias, jogado a porta de sua faculdade, vivendo como um mendigo qualquer da cidade. O empregado tomou o jovem, levou a um hotel e lá cuidou dele para que voltasse em bom estado.
Zé não conseguiu chegar a tempo em sua antiga casa. Seu Agostinho havia falecido um dia antes e seu irmão já estava preparando o sepultamento de seu amado pai. Zé sentiu um grande remorso tomar conta de seu peito, sentiu uma dor profunda por ter vivido aquela vida, esquecendo daqueles que mais o amavam, sua família.
Pedro, que passara a ignorar o irmão há algum tempo, entregou uma carta de seu pai a Zé seu irmão depois do enterro e partiu mais uma vez para o exterior.
O rapaz estava desolado, sua mãe partira sem que ele se importasse, seu irmão não o respeitava e parecia não o amar mais e seu amado pai estava agora a alguns palmos por debaixo da terra. Zé desejava apenas a morte. Ao abrir aquela diferente carta de adeus Zé sentiu-se o ser mais desprezível da face da terra. Em suas últimas palavras seu pai lhe dissera o quanto estava desapontado com a vida de seu filho e que a única salvação para ele era "morrer para esta vida" e que no celeiro encontraria a única forma de consolo para aqueles que vivam uma vida sem limites.
Zé Carlos caminhou em direção ao celeiro com aquela carta entre as mãos. Ao chegar encontrou aquilo que mais temia. Seu pai havia amarrado uma corda sobre uma viga, com um pequeno banco, onde ele supostamente deveria subir para a morte. Zé decidiu obedecer a seu pai pelo menos uma vez em sua vida. Subiu no banco, laçou o pescoço e antes de se soltar para morte, pediu para que Deus tivesse misericórdia de sua vida e que o perdoasse de seus pecados.
Ele agora chorava copiosamente ao chão, ao salta-se do banco, a viga não agüentou o peso, revelando em seu interior inúmeras pedras preciosas e mais uma carta de seu falecido pai, com os seguintes dizeres: "Filho amado, Deus lhe perdoa de suas falhas, seja bem vindo a vida eterna, espero que ande em dignidade diante de sua segunda chance".
Anos se passaram e agora Zé era uma nova pessoa, com o dinheiro de seu pai, entrou para uma casa de recuperação e ao sair cursou teologia na mesma faculdade que abandonara há anos. Zé Carlos se tornara um grande pregador que agora dedicava seu tempo para resgatar vidas na desgraça, assim como a dele se encontrara há anos atrás. Zé tinha certeza que só encontrara a vida, pois vivenciara a morte e passou a ser grato a Deus que nunca o abandonara, nem diante da morte.
Nenhum comentário:
Postar um comentário