sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O sâbio rato e o coelho desaparecido

Seu Ratão e o coelho desaparecido.



Em uma bela manhã de domingo seu Ratão estava a varrer a entrada de sua toca quando de repente um grito por seu nome lhe roubara a atenção.

- Socorro Seu Ratão, meu filho desapareceu!

Gritava Dona Coelhita em desespero.

- Mas como a senhora permitiu que isto lhe ocorresse?

Perguntou Ratão acudindo a aflita coelha

- Estava eu a passear com vinte e três dos meus filhotes pelo campo das amoreiras. Fiquei lá por toda a manhã lendo livros e tricotando enquanto meus filhotes brincavam pelo campo. Um pouco antes de ir embora, encontrei com o amigo Gavião Bom-de-bico e conversamos durante alguns minutos. Quando decide partir, ao fazer a contagem dos filhotes percebi que o número dezoito estava faltando, procuramos o sumido durante horas e como não consegui encontrá-lo, veio logo procurar a ajuda do mais sábio rato da floresta.

- Mas que caso complicado!

Respondeu Seu Ratão.

O rato silvestre ficou parado por poucos minutos pensando antes de dizer para Dona Coelhita o que fazer.

- Primeiramente devemos fazer uma recontagem organizada de todos os seus filhotes. Quantos filhotes a senhora têm?

Falou Seu Ratão.

- Tenho trinta ao todo!

Respondeu Coelhita.

Os dois partiram rumo à toca de Dona Coelhita. Ao chegarem, dispuseram todos os coelhinhos em fila e começaram a contagem.

- Um, dois, três, quarto... Vinte e nove e pronto!

Disseram juntos ao terminarem a contagem.

- É! Realmente a senhora tem um coelho desaparecido por aí!

Disse Ratão.

Ratão mais uma vez se pôs a pensar e de repente exclamou.

- Vamos interrogar cada um deles até conseguirmos uma pista. Vamos começar por você aí. Qual o seu nome e quando viu o número dezoito pela última vez?

- Meu nome é número um e ainda não fiz amizade com o número dezoito, sabe somos muitos irmãos!

Respondeu o primeiro coelhinho.

- vamos para o próximo. Disse Seu Ratão. Onde viu seu irmão, o número dezoito pela última vez?

- Ora, nem sabia que tinha um irmão com este nome!

Respondeu o número dois.

Depois de pular alguns coelhinhos, Seu Ratão fez mais uma pergunta, só que agora ao número quinze.

- Sabe onde esta o número dezoito rapazinho?

- Estávamos brincando de esconde-esconde, quando mamãe nos chamou. Acho que foi devorado pelo Lobo que vive aí fora!

Respondeu o número quinze.

- Nem brinque com isso meu filho!

Disse Dona Coelhita em grande aflição.

Agora seu Ratão já possuía uma informação importante para a solução do caso.

- Vamos até o local onde os filhotes estavam brincando. E você pequenino virá conosco!

Disse Ratão.

Os três partiram obstinados a encontrar o coelhinho perdido. Seu Ratão tinha certeza que encontraria mais pistas nos campos das amoreiras. Ao chegarem no campo, avistaram Gavião Bom-de-bico tirando um cochilo em uma das amoreiras.

- Vamos procurar por aí enquanto esperamos nosso amigo Gavião acordar, ele deve ter boas informações sobre o paradeiro do número dezoito.

Comentou o Sábio rato.

Eles procuraram durante horas e até pararam para um rápido lanche. Quando já estava anoitecendo, Gavião Bom-de-bico despertou de seu cochilo e logo começou a falar.

- Que bom vê-los por aqui! A brincadeira das crianças já acabou, acharam todos os que estavam escondidos? Pode sair por debaixo das minhas asas filhotinho, acho que você foi o campeão da brincadeira, que belo plano este que tivemos!

Logo que o pássaro acabou de falar, o pequeno filhote sumido saiu de seu esconderijo.

- Será que ganhei a brincadeira, afinal já faz horas que estou escondido aqui!

Disse o filhote.

- Que bom que lhe encontramos meu filho estava ficando preocupada.

Falou Dona Coelhita, aliviada por encontrar seu filhote perdido.

- Pode nos explicar como ficou sumido durante horas?

- Ora Mamãe! Avistei o senhor Gavião chegar para o seu cochilo matinal, e então perguntei se não poderia esconder em suas asas. Ele ainda se ofereceu para distraí-la enquanto me escondia. Que ótimo plano! Vou praticá-lo sempre.

Explicou o coelhinho.

Dona Coelhita tomou o coelhinho pela orelhinha, agradeceu Seu Ratão pela a ajuda e levou o jovenzinho prometendo-lhe um grande castigo.

- Que confusão meu amigo rato, não desejava que isto ocorresse!

Falou Gavião um pouco chateado com toda aquela situação.

- Não fique assim meu amigo, sei que este filhotinho aprendeu a lição. Disse Ratão. Quer tomar um chá de amora com biscoitos em minha humilde casa? Vai lhe fazer bem!

Os dois partiram rumo à toca de Ratão e Gavião Bom-de-bico nunca mais quis brincar de esconde-esconde com os coelhinhos e o coelhinho sumido ficou meses sem poder comer doce de cenouras.

Das lendas dos homens...

A muitas eras atrás, quando os homens começavam a se proliferar pela terra, havia uma tribo denominada Theor que subjugava outros povos com grande temor e muita força.

Seus homens eram valentes e conhecidos por nome de gigantes do deserto, habitando em tendas próximas ao antigo grande rio. Perfos era o nome de seu rei. Perfos possuía um espírito valente e um coração impetuoso, pretendendo conquistar para si toda terra conhecida, elevando seu nome até aos céus.

Theor, pai de Perfos, fora o primeiro entre os homens a manipular o ferro, criando para si armas poderosas, que se opunham facilmente as armas de pedras de outras tribos. Durante uma batalha contra a tribo de Othar, Theor fora atingido por uma flecha inimiga e antes de cair morto por terra, pediu para que seu filho Perfos, vingasse o assassinato de seu pai eliminando o nome de Othar por sobre a terra. Perfos cumpriu o seu juramento e invadiu a tribo de Othar com todo seu exército e sem piedade ou misericórdia, eliminou todos os homens da tribo, tomando para si as mulheres e despojos para o seu reino.

Antes de ter sua casa destruída por Perfos, Othar tomou seu filho Melkar e o enviou ao deserto sobre os cuidados de uma concubina, para que este não visse a morte.

Melkar crescia em força no deserto. Era homem caçador, que habitava em tocas junto com os lobos. Por causa de sua força, muitos homens se ajuntaram a Melkar, constituindo um grupo de cinqüenta homens, que passaram a serem conhecidos como os valentes de MelKar.

Perfos temia a Melkar, pois um oráculo profetizara sobre ele a derrota pelas mãos do remanescente da casa de Othar e desde então Perfos procurava fortalecer seu exército para atacar e triunfar sobre Melkar.

Certa vez estava Melkar e seus homens vagando pela estrada gelada, próximo as montanhas do norte quando avistou um corpo deitado sobre a camada de neve. Melkar aproximou do corpo e tomou em seus braços a bela moça.

Lithia era da tribo de Ulto, filha do guerreiro Thomar das montanhas do norte. Os homens destas regiões eram conhecidos como homens-brancos e eram famosos por seus cantos sombrios que causavam grande temor aos seus ouvintes.

Lithia era a mais bela de toda a tribo. Sua beleza era conhecida por toda a região e seu povo a tinha como grande tesouro. Lithia também era pastora alem de mestre em canto.

Melkar cuidou da moça com óleo e bebida forte e a levou de volta para sua tribo.

Ultir, rei da tribo, recebeu com grande festa a Melkar e seus homens e concedeu um pedido ao valente, que desejou Lithia como esposa. O coração do rei se encheu de ira ao escutar o pedido de Melkar e todo o povo entoou uma terrível canção que muitos dos valentes deixaram ser tomados pelo medo, porém Melkar manteve-se firme.

A tribo de Ulto há muito tempo estava em guerra com a tribo de Bedaia, povo excelente em magia e duro coração que não usava de misericórdia para com ninguém. Ultir então prometera Lithia à Melkar, se este se dispusesse a guerrear contra Bedaia e livra-se o povo das mãos do inimigo.

Melkar tomou os seus homens e partiu com suas armas até a tribo de Bedaia e ao chegar à noite atacaram os inimigos. O rei Balankur atacou Melkar com grande número de guerreiros e diversos magos que com sua magia atiravam fogo contra os escudos dos valentes. A batalha foi longa e muitos de Bedaia caíram mortos, porém ninguém do bando de Melkar fora atingido.

Melkar tomou a Balankur e o decapitou levando para Ultir sua cabeça.

Mandros filho dos magos achou misericórdia perante Melkar, passando a servir o valente.

Ultir, rei de Ulto, cumpriu sua promessa e entregou Lithia à Melkar como esposa sendo grande o amor entre os dois por todas as suas vidas.

Crônicas infantis...O Sâbio rato

Certa vez Seu Ratão estava colhendo amoras pela floresta bonita. Seu Ratão era um rato silvestre de muita sabedoria e diversos animais apareciam em sua toca todas às noites de lua cheia para ouvir suas histórias.

Seu Ratão tinha um grande problema, sua visão era muito ruim e seus velhos óculos não lhe ajudavam muito. O velho sábio já consultara o doutor Gafanhoto diversas vezes e este nada poderá fazer pelo Ratão. Tudo o que Ratão podia fazer era confiar em seus outros sentidos e sua inteligência.

- Bom dia sábio Ratão, as amoras estão ótimas nesta época do ano!

Disse Dona Coelhita

- Muito bom dia para a senhora também! Este grande barulho de pequenos pezinhos são os seus filhotes?

Perguntou Ratão.

- Sim senhor! Trouxe trinta deles para passear, mas como é difícil vigiá-los!

- Ora minha simpática Coelha, quando trazê-los, traga os três mais velhos e coloque cada um deles para vigiar um grupo de dez. Tenho certeza que aliviara muito a sua carga.

Seu Ratão passou a semana inteira colhendo amoras. O seu trabalho não era fácil, pois sempre trombava em algo, além de passar muito tempo tentando encontrá-las.

Cada dia encontrava alguém diferente e sempre tinha um conselho novo para dar.

- Como vai seu Ratão?

Perguntou leitão leitoso.

- Tudo bem meu jovem rechonchudo.

Respondeu o rato silvestre.

- Seu Ratão preciso de sua ajuda! Estou preparando um delicioso bolo de mel e leite para o lanchinho da tarde e gostaria de usar o delicioso mel que encontrei dentro deste tronco oco e cortado. Mas não consigo entrar dentro dele para pegar um pouco daquela doçura, pois sempre que tento, acabo ficando entalado. O que devo fazer meu amigo?

- Primeiramente lhe aconselharia um regime, pois assim você irá tornar alvo fácil para os predadores que aqui habitam, mas como penso que o senhor não esta disposto a tal sacrifício, lhe aconselho a trazer um pouco de manteiga para passar em seu grande corpo.

Falou Seu Ratão.

Seu Ratão cumpriu sua jornada até a amoreira durante todo o mês. Queria ter a quantidade exata para quando chegasse o inverno.

Em uma tarde, enquanto coletava suas frutas, um estranho lhe pediu a atenção.

- Boa tarde caro rato silvestre.

Perguntou o estranho

- Não costumo saudar estranhos quando estou longe de minha toca. Pode ser perigoso!

Respondeu Seu Ratão.

- Não se preocupe, sou apenas um animal perdido nesta imensa floresta. Por qual motivo usa esta bengala?

Perguntou mais uma vez o estranho

- Uso porque é preciso! Você é um sujeito muito mal educado!

Respondeu o sábio rato.

- Não quis ofende-lo. Meu nome é Língua Solta e estou procurando o caminho para o lago raso.

- Meu nome é Ratão e achara seu lago ao sul da floresta.

Disse o rato.

- Sabe, estou com muita fome e sou uma lagarta muito prestativa, poderia colher amoras com você?

Quis saber Língua Solta.

- Não se acha muito grande para ser apenas uma lagarta? Minha visão não é muito boa, mas sei distinguir uma lagarta de uma cobra mentirosa. E não pretendo tê-lo como companhia.

Após dizer isto, Seu Ratão largou seu pequeno cesto de amoras e tentou sair em fuga, mas poucos metros à frente, tropeçou em uma pedra.

- Não se precipite a correr seu rato velho. Não queria que me identifica-se tão rápido, gosto de conversar com minha comida. Sabe, vida de cobra é bem solitária.

Disse a cobra com um sorriso malicioso na face.

Quando Língua Solta ia se preparando para o bote no rato, Seu Ratão lhe roubou a atenção com uma pergunta.

- Mas por que vive tão sozinha uma cobra como você?

Queria ganhar tempo Ratão.

- Ora, quem gosta da companhia de um sujeito tão traiçoeiro e mentiroso quanto eu? Agora fique quieto que estou morto de fome!

Falou língua Solta.

Entretanto antes de uma nova investida pela parte da cobra, seu Ratão lhe fez outra pergunta.

- E por que o senhor tem de mentir tanto?

Língua Solta já estava perdendo a paciência.

- Nunca vi uma cobra que não mentisse. Acho que todas são assim!

Respondeu Língua Solta.

- Mas será que todas têm este péssimo costume? Não há ninguém em sua família que diga a verdade?

Insistiu Ratão.

- Deixe-me ver. Tem o tio Língua-Dupla que mente mais do que eu, a tia Língua traiçoeira que além de mentirosa é fofoqueira e tem também o...

Enquanto deixava a cobra distraída em seu próprio raciocínio, seu Ratão fugiu rapidamente e chamou ajuda para afugentar língua Solta. Antes que percebesse a ausência de sua vítima, a cobra viu uma multidão de animais furiosos correndo em sua direção com tochas, foices e outras coisas. Deram pauladas na cabeça de língua Solta, queimaram seu rabo e colocaram para correr a cobra peçonhenta.

Depois do terrível episódio o velho rato passou vários dias em casa se recuperando do susto e enquanto se recuperava, preocupava-se com o inverno que se aproximava, pois toda aquela confusão o impedira de conseguir a quantidade suficiente de amoras.

- Seu Ratão, Seu Ratão venha rápido aqui para fora!

Gritava leitão leitoso por de trás da porta da toca de seu Ratão.

- O que foi meu caro amigo, o que te atormenta?

Enquanto falava e abria a porta, Seu Ratão foi surpreendido por seus amigos que traziam consigo diversos cestos cheios das mais saborosas amoras de presente para o velho sábio.

Seu Ratão ficou tremendamente agradecido e feliz com a atitude de seus amigos, ficou tão agradecido que preparou uma bela torta de amoras e convidou a todos a sua casa para uma grande festa.

O inverno daquele ano foi bastante rigoroso e Seu Ratão teve comida suficiente por todo aquele período, e a todos que precisem Ratão compartilhava de sua comida. Ah, e depois disso Língua Solta nunca mais apareceu por aquelas bandas!