sexta-feira, 18 de junho de 2010

A camponesa e a rainha

Aqueles longos e chuvosos dias de Londres estavam deixando a famosa rainha Vitória em grande tédio. Tudo e todos a irritava e logo ela iria embarcar em uma diferente aventura. A grande rainha da Inglaterra estava inconformada com os comentários surgidos em seu palácio. Tudo que escutava era que o povo estava insatisfeito com sua maneira de governar e por simbolizar uma figura distante e inalcançável pelos seus súditos. Vitória queria entende o porquê de todas aquelas críticas, mas sempre que procurava uma resposta, todos lhe diziam que tudo não passava de uma fofoca, que o povo a venerava e seu reinado trazia grande satisfação para com os súditos. Mas Vitória era uma rainha de muita inteligência e sabia que todas aquelas opiniões serviam apenas para deixá-la satisfeita. Ela estava obstinada em descobrir a verdade, queria saber de qualquer maneira qual a imagem o povo inglês tinha de sua rainha. Toda aquela chuva estava deixando a rainha louca. Vitória não agüentava mais a aflição de ficar enfurnada dentro de seus aposentos, pois desejava sair às ruas londrinas, desejava saber de seu povo, queria saber qual o verdadeiro sentimento que todos tinham por ela. Passou vários dias procurando um jeito de sair do palácio, mas todos a aconselhavam a desistir da idéia, diziam que era loucura e que era impossível sair às ruas com toda aquela chuva.
Lillie andava muito atarefada naqueles dias de muita chuva. A jovem se casara muito cedo com um mercador e já tinha de cuidar de três filhos e de uma humilde casa com toda dedicação e atenção, pois não possuía dinheiro suficiente para contratar uma empregada. Seu marido participava de uma companhia de comércio, que realizava negócios com a Espanha, mas que passava por grandes dificuldades com as vendas e muitos culpavam a rainha pelos maus tempos da nação. Estava cuidando sozinha das crianças naqueles dias, pois seu marido encontrava-se em uma longa viagem e para a jovem dona de casa era uma enorme angústia passar tanto tempo longe de seu amado marido. Era muita tarefa doméstica para Lillie, tinha de cuidar de suas crianças, manter a casa limpa e fazer as compras no mercado naqueles tempos de tanta escassez e dificuldades financeira. Chorava dia e noite, era muito insegura e temia ficar viúva muito cedo como acontecera com sua mãe, que passara por diversas dificuldades para cuidar de seus filhos. A jovem camponesa desejava ajudar o marido, para que este passasse mais tempo em casa, ela queria apenas alguns segundos com a rainha para lhe dizer boas verdades, falaria para deixar a pose e cuidar dos problemas do povo, para sair do conforto de seu castelo e ver como estava a nação. Mal sabia Lillie que este dia estava para chegar.
Vitória bolara um excelente plano para sair do castelo, sabia que seria algo arriscado, mas não iria abandonar sua única chance de sair daquele enorme castelo e ver de perto como era a vida do povo inglês. Sempre no último dia do mês, um grupo de mercadores vinha até o castelo para realizar negócios com a corte. Não eram lá nobres, mas traziam algumas iguarias indianas que eram de grande valor para os ingleses. Era uma grande caravana, com diversos empregados e a rainha pensava em usá-los para seu plano de fuga. Vitória aprontou tudo para sua escapada, iria se vestir de uma servente da companhia entraria despistada mente no comboio e partiria rumo à cidade. Durante a noite, quando todos já estavam descansando, ela tomou as roupas de sua camareira, mudou suas vestes em seu aposento, se sujou um pouco e facilmente enganou os guardas, quando se retirou de seu quarto. Agora precisava alcançar o estábulo real, onde estavam acomodados os mercadores. Apesar de todo o medo que carregava durante a fuga, a rainha conseguiu chegar ao seu destino sem grandes complicações. Os mercadores estavam em roda cantando algumas cantigas de sua região, Vitória entrou dentre eles e sentou-se sem que ninguém a percebesse. Ficou maravilhada com a alegria dos mercadores, adorou cada canção e por um breve momento desejou ser uma simples camponesa ao invés de uma solitária rainha.
Naquele dia Lillie estava mais exausta do que nunca. Seu pequeno John estava resfriado por causa das ininterruptas chuvas, fazia dias que não conseguia ir ao mercado e por logo seus mantimentos iriam acabar. Ela precisava de ajuda, mais não sabia a quem recorrer, sempre que podia ia para cozinha ou para a varanda onde podia chorar um pouco, ou quando estava menos ocupada e muito tensa ia para uma igreja próxima a sua residência onde fazia suas preces, pedindo para que Deus trouxesse seu marido para casa, para ajudá-la com todos estes problemas.
Vitória arranjou um canto para passar a noite, pois a caravana iria partir pela manhã e ela precisava de uma carona para alcançar o mercado da cidade. Ela nunca havia dormido longe de seu confortável quarto e quase não fechou os olhos durante a noite, já estava desejando retornar para seu castelo, mas decidiu manter o plano, afinal queria muito conhecer seu povo, queria saber da verdade. Ela levantou bem cedo junto com o resto da caravana, comeu um pouco de ovos que uma mulher lhe ofereceu e partiu para o mercado junto com os mercadores. Quando estava no mercado, a rainha sentiu-se sozinha e insignificante, todas aquelas pessoas e ninguém era capaz de reconhecê-la, tanta gente e ninguém desconfiava de que ali estava a pessoa que assistia por elas diante dos outros povos, a pessoa responsável por sua segurança, a rainha mais importante de todo o mundo.
Lillie decidiu ir até o mercado para comprar algum mantimento, com o pouco dinheiro que a restava. Lembrou apenas de pegar um guarda chuva, pois a chuva prometia apertar.
A rainha estava um pouco enjoada com aquela mescla de cheios e toda algazarra daquela multidão que parecia enlouquecida, tentou apoiar em uma barraca para não desmaiar, mas logo foi mal tratada pelo dono do local. Quando ainda estava tentado entender a situação, uma jovem com um guarda chuva a tomou pela mão e a conduziu até sua casa, pois naquele momento a chuva começava a apertar. Ao chegar à casa da desconhecida moça, Vitória recebeu um copo de água e um pedaço de pão. O lugar era pequeno, mas bem cuidado, não possuía muito conforto, mas era emocionante para a rainha estar naquele local. A moça se chamava Lillie e apesar de jovem era casada e possuía três filhos.
A jovem Lillie não sabia o que oferecer para a desconhecida. Seus mantimentos estavam praticamente no fim e só pode oferecer a moça um pedaço de pão e um copo de água. A mulher parecia exausta e atordoada, não trazia nada consigo e disse que viaja com uma grande companhia de comércio. Lillie a achou bem diferente das mercadoras que ela conhecia, pois a moça falava como os nobres, usando um linguajar diferente, além de ser uma pessoa extremamente educada. A mulher ficara algum tempo lhe fazendo perguntas sobre a rainha e sobre o que a população londrina pensava de seu governo, Lillie até chegou a pensar que se tratava de uma revolucionária ou algo do tipo, mas logo desistiu da idéia, pois baseada em suas roupas a estranha era claramente mais pobre que ela. Antes de sair, a mulher ainda pediu um guarda chuva emprestado, pois a chuva ainda não havia passado, Lillie a emprestou um guarda chuva velho, pois sabia que dificilmente iria rever aquele objeto.
No final de tudo, Vitória saíra satisfeita com sua pesquisa, havia passado um bom tempo entre seu povo e descobrira que muito do que se falara sobre ela era verdade. Porém o que mais suspendeu a rainha foi a atitude de Lillie para com ela. A jovem camponesa fora solidária com uma estranha, sem mesmo saber que se tratava da soberana inglesa. A rainha tinha uma dívida para com ela.
Na manhã seguinte enquanto limpava a varanda, algo grandioso aconteceu na vida de Lillie. Uma comitiva da rainha inglesa parara em sua porta e um mensageiro real lhe entregara o velho guarda chuva, com um bilhete escrito pela própria rainha, onde esta, agradecia pela hospedagem e pelo empréstimo do guarda chuva. A rainha também ordenara que sua casa fosse isenta de impostos e que seu marido teria a oportunidade de realizar negócios em nome da corte inglês, a vida da camponesa havia se transformado, por causa de uma simples atitude de amor.

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